No site Naturales Tauromaquia encontrei este interessante texto de opinião assinado por José Barrinha Cruz e que aqui transcrevo com a devida vénia. Possívelmente poderão existir pequenas imprecisões mas penso que o fundamental é deveras relevante para ajudar a perceber alguma da evolução da Tauromaquia Portuguesa, nomeadamente a nível da figura do "forcado".
"Em fins do século XIX, princípios do século XX, os “moços de forcado” começam a pegar toiros em corridas já formais; uns pelo prazer de enfrentar o perigo; outros por valentia e gosto, e a maioria por dinheiro.
Desorganizados, cada um pensava por si, o dinheiro era dividido pelos oito e, quanto mais corridas fizessem, mais ganhavam, razão pela qual, além de pegarem pelos seus grupos, quando convidados, pegavam também pelos grupos vizinhos ou de cabos amigos.. Na composição dos cartazes, havia a preocupação de realçar o forcado; «famoso grupo de homens de forcado», «destemido grupo de moços de forcado» ou «grupo de forcados do arrojado, isto com o objectivo de atrair o mais público possível, ávido das “façanhas” destes, do perigo que corriam e colhidas a que estavam sujeitos.
Repare-se o que publicita o cartaz de uma corrida na Praça do Campo de Sant’Anna em 2 de Setembro de 1883: «15 TOUROS pertencentes ao abastado creador da Gollegã, o Exmo Sr. Theodoro Dias d’Oliveira que de há muito estão apartados para esta magestosa corrida, sendo nove touros puros e quatro já experimentados para cavallo e de extraordinaria bravura. São todos de 4 anos e affiançados pelo brioso lavrador. Entre os touros notaveis para cavallo figuram o celebre TOURO BESOURO terror dos campos da Gollegã pela sua espantosa ferocidade, e o afamado TOURO CAVALLEIRO, assim chamado pela grande lide e extraordinaria vontade a cavallo, tendo dado terriveis TIRADAS no campo».
Antes de 1883, chegaram a haver corridas com 13 (1864-1869-1875); passaram depois para 12 (1891/1898) ; 10 (1912-1919-1921); 8 a partir de 1924 até 1969/70, e a partir daqui para os actuais 6 toiros.
Os toiros eram enormes; grande parte antiga “casta” portuguesa; corridos já muitas vezes, ao ponto dos forcados saberem os nomes de cor e salteado; onde tinham sido corridos e quantas corridas já tinham feito! Isto, obrigava a que muitos toiros fossem para a “cernelha”, razão por haver vários cernelheiros por grupo - e às vezes não chegavam -, o que levou os grupos profissionais mais amigos a trocarem de forcados entre eles, pela necessidade de homens para determinados “tipo” de toiros que tinham de enfrentar.
Além disso, alguns forcados, após várias corridas e longe da família durante semanas, regressavam a casa para entregar o que tinham ganho - era dividido pelos 8 - ou vinha um e trazia o dinheiro dos outros, ficando, como é óbvio, o grupo com falta de homens para as corridas a seguir. Todo esse convívio e amizade, fez com que José Carraça fosse compadre de Joaquim Valentim, Manuel Burrico de Valentim Barrinha, Artur Garrett de Fortunato Simões, Edmundo de Oliveira e de José Luís Valentim, visitando-se todos eles amiúdas vezes.
Se em princípios do século XX verifica-se já haver grupos profissionais com alguma organização, ela começa a afirmar-se nos principais grupos da época em princípios dos anos 20, caso dos de Vila Franca de Xira, Vale de Santarém, Alcochete e Moita do Ribatejo, e definitivamente em princípios de 30.
Para se ter uma ideia do domínio desses grupos profissionais, referimos: Manuel Burrico (Vila Franca de Xira), entre 1919 e 1936, só na antiga Praça de Santarém fez 36 corridas; Edmundo de Oliveira (Vale de Santarém), também nesta praça, de 1922 a 1938 actuou em 15 e Artur Garrett (Alcochete), posteriormente, só numa época fez 60 corridas, incluindo Santarém.
Eram estes os grupos que até 1939/40 mais corridas efectuavam por época, não só nesta praça como em todas as outras. A 20 de Outubro de 1940, com a remodelação, ampliação e inauguração da Praça de Toiros de Santarém em que actuam os Forcados Amadores de Santarém, tendo como cabo António Abreu, faz com que este grupo, não só comece a actuar com mais assiduidade, como também o aparecimento contínuo de outros. O fim do toiro corrido - que vai desaparecendo em fins dos anos 30 - e definitivamente quando Mestre João Núncio os recusa a tourear, passando praticamente todas as ganadarias portugueses a serem de casta espanhola, tornou os toiros portugueses mais suaves, com as excepções de Vaz Monteiro e Norberto Pedroso (hoje José Dias).
A gradual evolução da festa, e a vivência social, faz ir desaparecendo lentamente os grupos profissionais, resistindo até aos fins da década de 50, princípios dos anos 60, os grupos profissionais de Lisboa de Adelino Carvalho; Tomar de Manuel Faia; Vila Franca de Xira de José da Vila; Moita de Alberto Vieira e de Alcochete de João Carraça (Áxaxa) ou António Verga."

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