A imprensa, volta na volta, traz-nos umas pérolas acerca dos comportamentos e da sociabilidade coexistente entre nós comuns mortais, sempre zelosos de bons costumes e sedentos de justiça e os outros, como diria o Octávio Machado. "vocês sabem de quem estou a falar...".
"Sem-abrigo em tribunal por furto de chocolates (JN de 7/11/2011)
Um sem-abrigo vai ser julgado por tentar furtar seis chocolates de um supermercado Lidl, no Porto. O processo já dura há ano e meio e terá custos muito superiores ao valor do crime (14,34 euros). A PSP tem de o procurar pelas ruas sempre que é preciso notificá-lo.
De António Miguel, 30 anos, as autoridades sabem apenas que costuma pernoitar junto a um edifício e que se dedica a arrumar carros na zona do Campo Alegre, no Porto. Mas como o seu estilo de vida errante não permite dar como garantido que ali se encontre quando se iniciar o julgamento - marcado para Setembro do próximo ano - a Polícia poderá ter de andar às voltas pela cidade para o contactar. Aliás, para ser constituído arguido teve, na altura, de ser detido."
Fabuloso... penso eu para com os meus botões que não tenho, uso fecho éclair...
Continuando, imprensa fora leio este artigo de opinião sobre o mesmo assunto:
"O caso dos seis chocolates do Lidl
por FERREIRA FERNANDES
(DN de 8/11/2011)
Sim, eu sei que há diferenças. Jean Valjean roubou um pão e António Miguel roubou seis chocolates. Os Miseráveis abre com Waterloo, e o horrível desfalque nas prateleiras do Lidl, no Porto, é contemporâneo. Mas há semelhanças: o romance vai da batalha, em 1815, às barricadas de Paris, em 1832, e o processo do magistrado encarregado do caso dos chocolates, acontecido há 18 meses, vai a tribunal em Setembro próximo, daqui a dez. Olha, surgiu-me outro ponto comum: o procurador do Ministério Público é tão tenaz com o António Miguel como o inspector Javert a perseguir Valjean durante anos. E, no entanto (como eu conheço os portugueses...), aposto que o nosso procurador quando se cruzou com Os Miseráveis - o livro de Victor Hugo ou o musical na Broadway -, os seus olhos marejaram-se, não pela pertinácia do inspector Javert mas pela compaixão por Jean Valjean. Então, por que deixar o caso chegar a Setembro do ano que vem? Eu sei que há o Código Penal, tão intratável quando se trata de seis chocolates. Eu sei que há o gerente do Lidl que não soube dizer "António Miguel, tornas a pôr os pés na minha loja, levas nas trombas", resolvendo o caso do sem-abrigo que tentou - esqueci-me de dizer: foi só tentativa - roubar-lhe chocolates. Eu sei que um caso aterrando na Justiça não é fácil a um magistrado desfazer-se dele. Sei tudo isso mas também que o magistrado podia ter rejeitado a facilidade. E não nos ter envergonhado a todos."
Tudo de pé a bater palmas.
Mas, e o sem-abrigo, esse atroz facínora que tentou cometer tão hedionda atitude? Calculo que não tenha lido a imprensa, se calhar nem sabe que é um dos criminosos mais procurados do país, agora à espera de vaga para bater uma suecada com os Socrates, Felgueiras, Isaltino, Duarte Lima, Penedos, etc, etc, deste país... mas aposto que só lá vai estar ele, a companhia ainda não chegou e claro, pelo andar da carruagem, não chegará nunca.
No longínquo janeiro de 2008 coloquei um processo a uma empresa de um vigarista energúmeno chamado Nelson Lopo (4one Solution, Solução Unica e mais 400 empresas falidas, fictícias e sabe-se lá mais o quê...) que me largou em Angola esquecido e se eu não me cuidasse até de fome (frio não, que aquilo é quente) me deixava lá morrer, que anda esquecido pelo tribunal do trabalho de Tomar desde então (faltam 2 meses para 4 anitos, coisa pouca...) mas agora vejo que fui enganado na maneira como coloquei a queixa, devia ter denunciado que ele me negou o direito a beber umas cucas por falta de pagamento de ordenado. Talvez assim a coisa já estivesse resolvida, ou talvez não porque neste caso, o sem-abrigo é o queixoso... amo a justiça deste país é tão imprevisível.
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